Meu direcionamento atual e as inteligências com as quais tento trabalhar hoje só foram possíveis pelos ensinamentos, bondade e paciência de meu professor Lama Padma Samten, que abriu o caminho para as práticas de estabilidade, sabedoria e compaixão dos budas e bodisatvas.

Agradeço também todas as linhagens que mantém viva e disponível a possibilidade da iluminação completa. E especialmente os professores e professoras do Dharma que tive a sorte de encontrar presencialmente: Lama Alan Wallace, Mingyur Rinpoche, Jetsunma Tenzin Palmo, Tenzin Wangyal Rinpoche, Phakchok Rinpoche, Dzigar Kongtrul Rinpoche, Lama Zopa Rinpoche, Matthieu Ricard, Chögyal Namkhai Norbu, Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche, Lama Tsering, Chagdud Khadro e Sua Santidade o Dalai Lama.

Pela formação de três anos, me capacitando a oferecer intensivos de TaKeTiNa no Brasil, agradeço Reinhard Flatischler (criador do método) e Cornelia Jecklin.

Agradeço imensamente também o apoio de minha parceira Isabella Ianelli, de Jeanne Pilli, Denise Barranco, Inez Campos, Stela Santin, Marcia Baja, Henrique Lemes, Marcelo Nicolodi, Mariana Aurélio, Eduardo Pinheiro, todos os praticantes ligados ao CEBB e também de outras sangas, de Eduardo Amuri, Fábio Rodrigues, Polliana Zocche, Guilherme Valadares, Felipe Ramos, de Bruno Ribeiro, Vanessa Krauskopf, Pati Passoni, Ian Black, Jeanne Callegari, Ana Thomaz, Mary Kogen, Lu Horta, Fernando Barba, Malu Maia, Jairo Viviani, de minha irmã Claudia, de meu irmão Alexandre Junior, de meu primo Bruno, de minha tia Benê, de meus pais Alexandre e Maria José, de meus avós, das várias pessoas que se alegram com minha vida e das incontáveis outras que já me ajudaram de algum modo sem saber.

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Marco Polo como Educador: uma reflexão sobre as cidades de Italo Calvino

Texto produzido em Agosto/2004 para a disciplina “Sociologia da Educação”, ministrada pela Prof. Dra. Flávia Schilling, no curso de Pedagogia da USP.

Apresentação

Livro A proposta sugerida para este trabalho foi a de escolher uma das cidades da obra As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, e imaginar como seria o processo de educação nesta cidade, sob a perspectiva da Sociologia. Ora, uma obra-prima como esta nos possibilita um total descentramento, uma desidentificação radical de nossos padrões e modos de ser, e nos abre para uma perspectiva mais abrangente do que seria a Educação. A definição de educação como a relação entre ensino/aprendizado não se aplica, por exemplo, a uma cidade hipotética onde o objetivo seria desaprender, onde todos nasceriam sabendo muitas coisas. Tanto o meio acadêmico quanto o senso comum são vítimas desta visão limitada de Educação, de modo que é importante lembrarmos do fato de que nossa visão de Educação implica em uma visão de mundo e, principalmente, implica na maneira como (co)construímos o mundo – os limites de nossa concepção de educação são os limites dos mundos que podemos criar.

Considerando tais reflexões, conclui que se fosse escolhida apenas uma cidade, minha imaginação criaria um mundo não tão distante do atual, e o exercício do descentramento não ocorreria. Optei, portanto, por um percurso que me levasse de cidade a cidade, em um esforço de desidentificação para vislumbrar uma Educação que abarcasse tais territórios.

Originalmente o título era “Marco Polo como Sociólogo”, sendo que minha intenção seria desdobrar a obra de Calvino em algumas paisagens sociológicas que desvelariam novos horizontes em Educação. Com “Marco Polo como Educador” não faço exatamente o contrário, mas em vez de derivar a Educação da Sociologia de forma rigorosa em uma longa cadeia argumentativa, deixo-as surgirem juntas num movimento poético único que emana da intersecção de minha mente com a obra de Calvino.

Na primeira parte, é delineada uma visão de sociologia para abrir espaço a uma concepção de cidade como uma miríade de realidades consensuais (mundos compartilhados), no sentido coletivo; e como uma das infinitas realidades costurada em meio a multidões de seres, no sentido particular, individual; formando cidades dentro de cidades dentro de cidades, mundos dentro de mundos dentro de mundos… Na segunda parte, percorro as cidades descrevendo minhas próprias interpretações. Na última parte, esboço uma Educação que contemple todas estas cidades, esclarecendo por que Marco Polo seria um excelente educador…

Uma Sociologia dos Mundos

“De uma cidade não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas as respostas que dá as nossas perguntas.” (Calvino, p. 44)

Italo CalvinoCom Calvino [foto ao lado], podemos trabalhar com a metáfora do sujeito como pergunta incessante e do objeto como resposta construtora de realidades. Os objetos que surgem à percepção são as respostas que o real fornece às nossas indagações. Como diria Merleau-Ponty, precursor da virada cognitiva, as coisas não se apresentam a nós, mas somos nós, antes, que nos apresentamos às coisas. O real é uma vasta gama de espectros fractais que se reconfiguram à medida que nos colocamos diante dos fenômenos.

Porém, isto não significa um Idealismo filosófico, mas apenas a transcendência pós-moderna do Realismo, que considerava a realidade como pré-definida e independente do sujeito. Esta estruturação não-dual da relação entre sujeito e objeto se reflete em uma Sociologia menos ousada do que as primeiras teorias sobre a sociedade, já que hoje sabemos da impossibilidade de uma teoria social completa e todo-abrangente:

“— Quando conhecer todos os emblemas [cidades] — perguntou a Marco —, conseguirei possuir o meu império, finalmente? E o veneziano: — Não creio: nesse dia, Vossa Alteza será um emblema entre os emblemas.” (Calvino, p. 26)

Tal impossibilidade não é efeito da complexidade do objeto sociológico, pois isto seria ainda mais uma interpretação realista, mas de nossa posição imersa ao mundo, de nossa presença encarnada no mundo, do fato de sermos mais um emblema, mais um sujeito entre sujeitos, mais uma perspectiva entre perspectivas.

O sociólogo com suas teorias faz perguntas ao mundo e vê realidades com resposta. As respostas surgem como mundos aparentemente exteriores, sendo que suas perguntas ajudam a (co)construir o próprio mundo que ele descreve. Sua postura não é passiva, de pura observação distanciada, mas ativa, modelando enquanto vê, formatando enquanto relata, objetivando ao subjetivar. Além disso, os relatos sociológicos que descrevem o olhar do sociólogo invadem os olhos de outras pessoas e elas são levadas às mesmas perguntas sobre a realidade e, por conseqüência, a mundos similares. É assim que, ao descrever um mundo, o sociólogo acaba por construi-lo.

Mundos sobre mundos, entrelaçamento entre indivíduo e sociedade, entre singular e coletividades (sempre “coletividades”, nunca “coletividade”), a cidade é este mundo inexistente que contém e acolhe todos os mundos produzidos em seu seio.

O paradoxo da constituição de qualquer sociedade é bem ilustrado por Calvino:

Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra. — Mas qual é a pedra que sustenta a ponte?, pergunta Kublai Khan. — A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra, responde Marco, mas pela curva do arco que estas formam. Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta: — Por que falar das pedras? Só o arco me interessa. Polo responde: — Sem pedras o arco não existe. (Calvino, p. 79)

A cidade não é construída por nenhum dos sujeitos, nem por a soma deles, mas ao mesmo tempo não construída por nada que não seja estes mesmos sujeitos. A sociedade não é a soma de pessoas, nem mesmo algo além das pessoas. Imanência pura, a sociedade (e a cidade) é o solo intersubjetivo (cultura, língua, valores, hábitos) e também os artefatos e construções interobjetivas (prédios, indústrias, máquinas, materiais) que produzem e são produzidas pelos sujeitos. Este círculo recursivo não contém início: produzimos aquilo que nos produz, somos subjetivados por aquilo que objetivamos.

É dentro desta sociologia dos mundos que vamos agora explorar as cidades de Calvino, que são cidades que povoamos a cada dia, não apenas em nossa imaginação, mas como realidades concretas que ainda não acessamos por não compartilharmos com força suficiente…

As Cidades

“Jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve.” (Calvino, p. 59)

Antes de adentrar o universo de Calvino, vamos analisar brevemente a seguinte afirmação de Foucault: “A ficção [arte] consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível”.

À luz da exposição anterior, podemos perceber que Foucault descarta a postura realista (“não em fazer ver o invisível”), como se houvesse uma parte do real pré-definida e oculta, e coloca o desafio da arte no esforço em mostrar o quanto tomamos a realidade como algo evidente e natural, o quanto cremos em um mundo sólido fixo diante de nós. Daí o aparente absurdo da frase: “até que ponto é invisível a invisibilidade”. Até que ponto não percebemos o caráter onírico, espectral e caleidoscópio da realidade, ou, pelo outro lado: até que ponto estamos cegos para o caráter aberto e não-definido do mundo, até que ponto abdicamos de nossa liberdade criativa. Foucault não só afirma que o real é invisível (“invisibilidade do visível”), como qualquer pensador pós-kantiano, mas que tal fato nos é desconhecido. O papel da arte seria, assim, apontar para esta nossa cegueira, iluminá-la e retirar a evidência de nossas percepções usuais. Entretanto, esse movimento de forma alguma é negativo, destruidor de qualquer possibilidade de visão, mas positivo, pois nos impele ao vórtice criador de realidades e nos confirma a possibilidade de criar mundos diferentes. Apontando para a insubstancialidade do real, uma obra de arte modela o mundo de forma inédita e nos convida a modelá-lo também.

Eis a seguir mundos não imaginários, não fantásticos, mas mundos que já existem e nos povoam a todo momento…

Tamara

Tamara é, por excelência, a cidade dos símbolos. Cada coisa significa e aponta para outra coisa, que por sua vez aponta para outra coisa, num ciclo em que não há objetos em lugar algum, apenas simulacros, apenas simulações de realidade. “A tira bordada na testa significa elegância, a liteira dourada, poder” (p. 18). Tamara é, na verdade, o discurso sobre Tamara, uma ideologia toda encadeada que se propõe como realidade: “enquanto você acredita estar visitando Tamara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela define a si própria”.

Tamara é o nosso mundo quando o vemos pelos olhos de uma ideologia. Por outro lado, não será verdade que estamos sempre em Tamara, mesmo quando nos libertamos de uma ideologia e criamos nós mesmos o sentido da existência?

Zoé

A cidade mais plástica da obra de Calvino, Zoé tem em qualquer de seus pontos a potência de ser qualquer lugar: “em todos os pontos da cidade, alternadamente, pode-se dormir, fabricar ferramentas, cozinhar, acumular moedas de ouro, despir-se” (p. 34). Ela é, por assim dizer, a cidade-mãe, a cidade que dá origem a todas as cidades – a cidade virtual que se atualiza incessantemente em infinitas cidades.

Poderíamos dizer que quanto mais uma determinada cidade se aproxima da plasticidade de Zoé, mais rica e virtuosa ela se torna, mais possibilidades abre a seus sujeitos para suas construções intersubjetivas (cultura, arte, pensamento) e interobjetivas (casas, edifícios, salas, objetos, produtos). Pelo interior da cidade, poderíamos dizer que quanto mais os sujeitos se tornam “cidadãos de Zoé”, mais eles se transformam em seres virtuosos, expandindo suas identidades e suas potências de ser, saber e conviver.

Zirma

Zirma é o que nossa cidade se transforma após assistirmos a um noticiário na televisão. Uma cena singular, de um evento único, é explicitada, repetida e reencenada até que nossa cidade fique repleta de cenas assim. E não apenas em nossa imaginação: a repetição é, sobretudo, ontológica. A televisão cria realidades na medida em que reforça alguns padrões de comportamento e ignora outros. A televisão “repete os símbolos para que a cidade comece a existir” (p. 23).

Olívia

Em Olívia, Marco Polo nos ensina muito sobre a qualidade espectral das cidades e sobre nosso poder e liberdade de atuação. Primeiro ele nos diz que “jamais de deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve” (Calvino, p. 59). Isso fica claro com o que já exploramos neste trabalho, pois a cidade, no sentido amplo, é a condição de possibilidade dos discursos, visões e perspectivas, e ao mesmo tempo, no sentido restrito, é ela mesma estes discursos, visões e perspectivas. Portanto, Calvino parece se referir ao sentido amplo de cidade. Porém, logo em seguida, conclui: “A mentira não está no discurso, mas nas coisas” (Calvino, p. 59). Kant afirmou que a coisa-em-si não pode ser acessada, mas os pensadores pós-modernos deram um passo além: a coisa-em-si não existe. As coisas, nelas mesmas, são “mentiras”, ou seja, não significam nada, não são discurso algum. Somos nós que fazemos delas “verdades”, objetos significantes, realidades vivenciadas, por meio de nossos questionamentos, por meio de nosso olhar interrogativo. A falta de fundamento último do real é ela mesma o fundamento de nossa liberdade, de nossa ação criativa no mundo. A cidade não está definida, não está fechada em lugar algum, é uma “mentira” nela mesma: cabe a nós defini-la em mil verdades e realidades.

Maurília

“Para não decepcionar os habitante, é necessário que o viajante louve a cidade dos cartões-postais e prefira-a à atual” (Calvino, p. 30). Maurília é a cidade do passado. Seu presente tem como único papel ser uma janela ao passado e referência para comparação com a outra cidade nostálgica. Por ser cega para o seu próprio presente, “algumas vezes cidades diferentes sucedem-se no mesmo solo e com o mesmo nome, nascem e morrem sem se conhecer, incomunicáveis entre si”. Maurília é vítima de um autismo coletivo e é aquilo que qualquer cidade se torna quando sua referência ontológica é exterior, heterônoma, quando o poder é projetado para longe, seja no passado, no futuro, ou em algum outro fantasma.

Ousaríamos afirmar que quanto mais uma cidade se esforça por explicitar seu passado por imagens, objetos, fotos, objetos (os cartões-postais de Marília), menos este passado está incorporado neste presente, menos ela se desenvolveu, menos ela aprendeu com seu passado.

Zaíra

Zaíra é o contrário de Maurília. Se em uma o presente é vazio e fantasmagórico, sempre apontando para um passado que não mais existe, a outra faz o passado viver incorporado no presente, que é cada vez denso de experiências e possibilidades vivenciadas. O passado não está em iconografias, mas imerso e constituinte de cada fato presente.

Zaíra e Maurília são os dois extremos para os quais qualquer cidade pode tender em sua relação com o passado.

Anastácia

Anastácia é a sociedade de consumo. É o capitalismo imagético e imediatista. Há propagandas, outdoors, luzes, cartazes espalhados em todos os lugares e todos eles provocam um desejo e uma possibilidade de satisfação imediata. “Nenhum desejo é desperdiçado” (Calvino, p. 16) e muitas vezes o consumo é apenas de imagens, sonhos e simulacros. A propaganda induz um desejo e você já se satisfaz apenas por ver a cena do desejo sendo saciado.

Despina

Despina exemplifica a visão de cidade que vem sendo defendida neste trabalho. “A cidade se apresenta de forma diferente para quem chega por terra ou por mar” (p. 22), ou poderíamos dizer que a cidade se apresenta diferente para cada sujeito, para cada investida de poder, para cada postura.

Marco Polo nos conta que “cada cidade recebe a forma do deserto a que se opõe”, mas não seria verdade afirmar que cada cidade recebe a forma do sujeito a que se opõe? A diversidade de subjetividades cria uma miríade de objetividades – o aspecto positivo, ativo dessa não-dualidade, a liberdade – e a diversidade de objetividades, por sua vez, cria incontáveis subjetividades – e é este o aspecto negativo do poder, o lado passivo, a servidão. Por um lado, construímos a cidade, por outro, a cidade nos constrói.

Fedora

Fedora materializa o que acontece em todas as cidades. As esferas de vidro objetivam os mundos que se escondem na mente de todos os seus habitantes. Os projetos de cidade, as realidades existenciais, as perspectivas de cada ser, as cidades não compartilhadas. Engana-se quem pensa que tais mundos são ilusórios e meramente fantasiosos…

Leandra

Em Leandra acontece o debate oculto em todas as cidades, representado pelos deuses Lares e os Penates. Os Lares eles têm residência fixa, cada um sempre esteve na mesma casa. “Os Penates acreditam ser o espírito da cidade” (p. 75): eles acompanham os moradores e se movem junto com as pessoas. Afinal, o que faz uma cidade é a materialidade objetiva dos Lares ou a energia subjetiva dos Penates?

Irene

Irene é a cidade sem dentro. Ela nunca é vista de dentro, e nunca ninguém consegue adentrá-la. Talvez seja este o resultado da alienação dos sujeitos, da constante atribuição de poder ao exterior: chegará um dia que nossa cidade será Irene, cidade alienada de si mesma, sempre olhando-se de fora sem nunca conseguir encontrar seu ser em si mesmo.

Pentesiléia

O avesso de Irene, Pentesiléia é a cidade em que o “centro está em todos os lugares”. Marco Polo se pergunta: “fora de Pentesiléia, existe um lado de fora?”. Quando seus habitantes incorporam o poder e mergulham na imanência produtora do social, a cidade engloba a si mesmo em um dentro todo abrangente que abarca até mesmo seus exteriores. Pentesiléia invade todas as cidades com a seguinte pergunta: Existe mesmo um fora?

Procópia

Termino minha breve incursão em algumas das cidades de Calvino naquela que é certamente a cidade mais representativa deste trabalho e a metáfora arquetípica de meu pensamento.

A passagem de Marco Polo por Procópia ilustra o processo de emancipação em qualquer cidade imaginável. Em sua primeira estada, nada havia senão objetos, materialidades objetivas. Na segunda vez que esteve por lá, reconheceu um habitante isolado em toda a cidade. E cada vez que passava por lá, sua mente ia desvelando os sujeitos, um a um, que compõem a cidade. Procópia é, na verdade, feita de gente. Não apenas construída por pessoas, mas constituída delas, como sua própria matéria-prima. Procópia é o que surge na mente emancipada, na mente que reconhece o mistério que faz com que subjetividades se vivam objetivamente e objetividades se vivam subjetivamente. Procópia é o que vemos quando percebemos como nunca houve nenhum mundo concreto “lá fora”, mas sempre mundos (co)construídos por nós mesmos, seja atribuindo nosso poder a agentes externos, seja engajando-nos e imergindo na teia do real.

A Educação

“Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo”. (Foucault, 1970, p. 44)

Tomemos a afirmação de Marco Polo, ao descrever Olívia: “jamais de deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve” (Calvino, p. 59). É possível distinguir duas espécies de educadores: os que ensinam discursos e os que ensinam a criar discursos, os que mostram imagens e os que ensinam a ver.

Em Zemrude, onde “é o humor de quem olha que dá a forma à cidade” (p. 64), educar é apenas apontar para as formas que já foram modeladas ou é ensinar a dar forma, ensinar a criar formas, a criar Zemrudes diversas?

As crianças, em geral, crescem em um mundo que se apresenta como definido e pronto. Elas aprendem como as coisas são, e dificilmente como vieram a ser deste e não de outro modo. Todos nós nascemos inicialmente em Tamara, a cidade que diz “tudo o que você deve pensar”. Antes de tentar ensinar algo a uma criança, o professor deve se perguntar: que mundo é este o nosso que possibilita o surgimento de Tamara? Como eu posso ensinar a olhar para além de Tamara, e como mostrar que Tamara é condicionada e foi algo construído?

Em Olívia e Tamara, entendemos que a educação para a emancipação, em qualquer cidade possível, é sempre a passagem da passividade pré-kantiana – terreno fértil para ideologias que se passam pela realidade como ela é – para a atividade pós-kantiana, que por dissolver a idéia de coisa-em-si, enfraquece as ideologias. As pessoas devem se descobrir como agentes construtores de realidades, cidades e mundos.

Em Leandra, seria a Educação a educação dos Lares sobre os Penates, da cidade sobre os sujeitos, ou a educação dos Penates para os Penates, de sujeitos para sujeitos, reconhecendo a predominância do sujeito criador sobre a cidade? Educação para adequação e reprodução ou Educação para transformação?

O professor, ele mesmo, deve passar por este processo de libertação para conseguir orientar seus alunos. Tal emancipação proposta pela Escola de Frankfurt, por Foucault, por Kant, é bem descrita por Berger e Luckmann em A Construção Social da Realidade:

“Por um momento vê-mo-nos realmente como fantoches. De repente, porém, percebemos uma diferença entre o teatro de bonecos e nosso próprio drama. Ao contrário dos bonecos, temos a possibilidade de interromper nossos movimentos, olhando para o alto e divisando o mecanismo que nos moveu. Este ato constitui o primeiro passo para a liberdade.” (Berger; Luckmann, 1966)

Antes de tentar ensinar algo a uma criança, o professor deve se perguntar que mundo é este o nosso que possibilita o surgimento de Tamara, a cidade dos símbolos, Zirma, a cidade que repete imagens, Maurília, com seu passado desincorporado, Anastácia, a cidade do consumo imediatista, Irene, mundo sem interiores, Fedora, a cidade de projetos…

A arte de formar agentes transformadores para Cloé, Eutrópia, Ercília, Melânia, Eusápia, Pentesiléia, Leônia, Olinda, Raíssa, Zirma, Despina, Dorotéia… À luz da obra de Calvino, não seria esta uma boa definição de Educação?

As coisas são feitas de nuvens. Tenhamos em mente Zoé (a cidade plástica) e Procópia (a cidade feita de gente), e eduquemos nossas crianças não para morar em tais cidades, mas para transformar nossas cidades em enormes Zoés e Procópias…

E o fim da viagem…

“Marco Polo imaginava responder… que, quanto mais se perdia em bairros desconhecidos de cidades distantes, melhor compreendia as outras cidades que havia atravessado para chegar até lá, e reconstituía as etapas de suas viagens, e aprendia a conhecer o porto de onde havia zarpado, e os lugares familiares de sua sua juventude, e os arredores de casa, e uma pracinha de Veneza em que corria quando era criança.” (Calvino, p. 28)

O esforço de descentramento, de desidentificação de nossa própria cidade, nos propicia um novo olhar para a Educação. Imaginando como seria a educação na Tamara, na Procópia, na Otávia, na Ândria de Calvino, acabamos por descobrir como educar nas Tamaras, Procópias, Otávias e Ândrias que já habitamos e que nos habitam.

Marco Polo é, antes de tudo, um educador por excelência. Aquele que mostra os mundos possíveis, os modos de ser que podem ser incorporados por nós, e não aquele que nos fixa no mundo como ele é, pois isto não existe. Ao contar histórias, ele acessa as cidades invisíveis – não inexistentes, não imaginárias, não ilusórias, mas possíveis.

Educação é, sim, iniciação ao mundo. Iniciação ao mundo como potência de mundos, iniciação à fonte das cidades invisíveis e ao poder inerente a todos de construí-las.

Se há um fim para o percurso educativo ou se há um fim para as viagens de Marco Polo, ele será como descrito pelo poeta T.S. Eliot: “… e o fim de nossa viagem será chegar ao lugar de onde partimos. E conhecê-lo então pela primeira vez.”

Bibliografia

  • BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas (1966). A construção social da realidade. Petropólis: Vozes.
  • CALVINO, Italo. As Cidades Invisíveis. (Tradução: Diogo Mainardi). São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
  • FOUCAULT, Michel (1970). A Ordem do Discurso. 8.ed. São Paulo: Loyola, 1996.

Feel Before Memory – David Deida

Essa é uma das coisas mais geniais que já li.

“What is important today is forgotten tomorrow. When it’s time to use the toilet, really time, all importance is reduced to the event. In bed at that moment, orgasm is all. Chased by a madman with a gun, there is nothing else; waking up from the dream, there is nothing else but relief. A child finds her doll important. A father finds his finances important. Riddled with cancer, an old man finds love important, as his eyes close one last time.

What do you find important, now, today? What did you find important ten years ago? Remember back to your earliest childhood memory, the very first time you can remember anything at all. What was important to you then?

Still feeling your very first memory in life, feel before that. What happens when you try to feel earlier than your first memory? Do you feel into blackness? Is there a sharp wall of time that stops you? Or can you feel an ineffable openness that seems to extend before your earliest childhood memory, an openness without clear bounds, an openness that is you even now?

Of every moment that has ever seemed important, all that remains is the openness who you are.”

–David Deida, excerpt from Blue Truth.

Emoções e mandala básica

O Trungpa é mesmo foda…

“Usualmente, podemos expressar a nossa raiva ou agressão, batendo em alguém ou destruindo algo ou sendo verbalmente rudes. Tais ações e frustrações surgem de nossa emoção como resultado de uma falha em realizar que há um espaço total no qual tais energias estão operando. Em outras palavras, tanto suprimir como expressar são um substituto emocional ao invés de emoções verdadeiras. São como sedativos. Uma experiência emocional perfeita ou verdadeira significa a realização da totalidade da fundação, realizar que as emoções operam no meio de um espaço inteiro. Neste ponto, começamos a experimentar os sabores das emoções, suas texturas e suas temperaturas. Começamos a perceber o aspecto vivo das emoções ao invés de ou seu aspecto frustrado.

Neste contexto, o que a frustração significa, é a estagnação. Queremos dar nascimento a algo, mas não conseguimos. Assim, nós gritamos, tentamos ajeitar as coisas, ou simplesmente arrebentar algo. Sentimos que apesar de algo estar definitivamente acontecendo, este algo ainda não está completamente ali. Há uma sensação de incompletude, uma sensação de que algo está acontecendo de um modo totalmente errado do ponto de vista emocional. E isto ocorre porque falhamos em enxergar a totalidade, o que é inteiro, que é o princípio da mandala.”

“Isto não se aplica só às nossas emoções, mas a todas as nossas experiências do dia a dia como um todo. Uma vez que vejamos a totalidade, teremos a experiência de ver as coisas como elas são, no seu próprio modo de ser absoluto. A qualidade azul do céu e a qualidade verde dos campos não precisam de confirmação e nem de um senso extraordinário de apreciação. Eles apenas são, então, nós não precisamos reafirmar ou confirmar que elas são. Quando realizamos a totalidade básica da situação como um todo, a nossa percepção se torna extraordinariamente viva e precisa. Isto porque ela não surge colorida pela ‘convencionalidade’ de uma crença no que quer que seja. Em outras palavras, quando não há dogma – quando não há nenhuma crença na qualidade azul do céu e na qualidade verde dos campos – então nós começamos a enxergar a totalidade.”

“Todas estas idéias da mandala básica, a mandala total, que nós estamos discutindo, são completamente do ponto de vista de ninguém. A mandala é o seu próprio ponto de vista. E, por isso, ela é livre de nascimento e morte, assim como, ao mesmo tempo, ela se revela como a expressão mais pura do nascimento e da morte. É ela que sustenta todo o universo, toda a existência, assim como é ela que mata todas as coisas.”

Trechos do capítulo 6 do livro (tradução não oficial da querida Brenda):

ORDERLY CHAOS – THE MANDALA PRINCIPLE
CHÖGYAM TRUNGPA
DHARMA OCEAN SERIES
SHAMBALA PUBLICATIONS INC.
BOSTON 1991
ISBN 0-87773-636-7

Lógica do oferecer

Falei sobre isso neste post aqui: “Oferecer (para homens)“. Hoje li um artigo do Ricardo Neves, consultor e colunista da Época (by the way, estou lançando o primeiro livro dele em versão digital). Pelo jeito, cada vez mais as pessoas estão se tocando que assim tudo funciona melhor. Veja que perfeito isso (artigo na íntegra):

“Prezado Ricardo: passei por vários empregos até meus 39 anos, quando perdi meu último emprego, na função de gerente de marketing de uma multinacional de turismo. A partir daí, durante vários meses, fiz o processo de sempre: dezenas de currículos enviados, o esforço de contatar toda a minha rede de conhecidos etc. Tudo difícil. Muita rejeição. Afinal, sou velho para o mercado.

Há cerca de dois meses tomei uma decisão diferente. Resolvi pensar não como um desempregado, mas como o gerente de marketing que já fui. Percebi que estava me promovendo como uma mercadoria banal, não como o ser humano produtivo e experiente que sou. Meu currículo mostrava apenas o que muito garoto de 27 anos já tem até de sobra, como MBA e experiência internacional. Decidi então mudar a tática. Usei a internet para pesquisar empresas de que gostava ou aquelas que tinham produtos relacionados a minha experiência. Selecionei inicialmente 20 empresas. Ao final, me concentrei em cinco, uma em cada segmento. Em vez de enviar meu currículo, mandei um e-mail com um estudo de mercado que elaborei para cada empresa. Minha análise incluía novas oportunidades de negócio, brechas que eu antevia em relação aos concorrentes, novos produtos que poderiam ser lançados ou reconfigurados. Junto, seguia minha proposta de trabalho.”

O que aconteceu com o leitor? As cinco empresas contatadas responderam com propostas de trabalho em apenas uma semana. Ele então escolheu uma na qual passou a receber um salário mensal fixo. Mas também começou a prestar serviço para mais duas delas, onde ganha por produção. Com a quarta empresa, mantém contato. Só descartou mesmo a quinta companhia. A empresa que lhe paga salário é francesa, trabalha com software. Está interessada na capacidade do leitor em entender o mercado brasileiro. Nada a ver com turismo, última área em que ele havia trabalhado.

Dzongsar Rinpoche sobre o sentido da vida

“Não é apropriado perguntar a um budista: “qual é o propósito da vida?” porque isto sugere que em algum lugar fora daqui, talvez em uma caverna ou no topo de uma montanha, existe um propósito último. Esta questão sugere que nós poderíamos decodificar o segredo estudando com santos vivos, lendo livros, ou dominando práticas esotéricas.

Budistas não acreditam que há um deus criador, e não tem este conceito de que o sentido da vida foi, ou precisa ser, definido. Uma pergunta mais adequada para fazer a um budista é simplesmente “o que é vida?”. Do nosso entendimento sobre impermanência, a resposta poderia ser óbvia: “vida é um grande conjunto de fenômenos reunidos, e assim vida é impermanência”. É uma mudança constante, uma coleção de experiências transitórias. E mesmo que existam miríades de formas de vida, uma coisa todos temos em comum, que é que nenhum ser vivo deseja sofrer. Todos nós queremos ser felizes, desde presidentes e bilionários a formigas trabalhadoras, abelhas e borboletas.

É claro que, a definição de “sofrimento” e “felicidade” difere muito entre as formas de vida, mesmo dentro do relativamente pequeno reino humano. A definição de sofrimento para uns é a definição de felicidade para outros e vice-vesa.

Mesmo para um único indivíduo, a definição de felicidade e sofrimento flutua. Um leve-emotivo momento de flerte pode repentinamente mudar quando alguém deseja um relacionamento mais sério; esperança se torna em medo. Quando você é uma criança na praia, fazer castelos de areia é felicidade. Quando adolescente, olhar as garotas de bikini e os garotos surfistas com peitos grandes é felicidade. Na meia-idade, dinheiro e carreira são felicidade. E quando você está nos oitenta, colecionar vasos de cerâmica é felicidade. Para muitos, abastecer estas infinitas e sempre-mutáveis definições é o “propósito da vida”.

Dzongsar Khyentse Rinpoche, in What makes you not a budhist

Alguns livraços

Eis algumas obras que desejo muito ler…

Dragon Thunder: My Life with Chögyam Trungpa
Diana J. Mukpo

What Makes You Not a Buddhist
Dzongsar Jamyang Khyentse

Contemplative Science: Where Buddhism And Neuroscience Converge (Columbia Series in Science and Religion)

Alan Wallace

Happiness: A Guide to Developing Life’s Most Important Skill
Matthieu Ricard

Lack and Transcendence: The Problem of Death and Life in Psychotherapy, Existentialism, and Buddhism
David Loy

Theory U: Leading from the Emerging Futures (a ser lançado em Junho/2007)
Otto Scharmer

Viviane Mosé

A primeira coisa que dela ouvi foi: “corpo é vento condensado”. E pronto, ali soube que ela era uma das minhas. Sexta-feira, anos depois, li o seguinte trecho em pé numa livraria… Um dos mais lindos que já encontrei. É algo no estilo da Miranda July, nessa idéia de que o real inventado é o mais gostoso de todos. Como diria o poeta, o que seria de nós sem as coisas que não existem?

A Miranda e seu Me and You and Everyone We Know estão comigo até agora. Com dois livros da Viviane Mosé na mão (Desato e Toda Palavra), não resisti: comprei, mandei embrulhar para presente e no dia seguinte dei a uma estranha. Foi a melhor coisa que poderia fazer! Nunca senti alegria tão genuína, nunca vi um sorriso tão vermelho e surpreso! Tomara que ela esteja lendo agora e que um dia possa igualmente presentear um estranho…

“Como eu queria escrever a história de um homem sentado na janela de um trem de minas, de terno escuro de linho e óculos, olhando a menina moça que vende doce de leite em forminhas de empada. Ele olha pra ela e depois o foguista ganha uns peixes do rapaz que um dia vai enamorar dela e casar. O rio corre ao largo sempre ralo e barrento. O homem de terno escuro olha como eu gostaria de ter olhado, a estação e a menina, que nem percebe o rapaz que deu os peixes e mora na pensão. Marília talvez fosse o nome dela. Marília de vestido amarelo amaria na relva o rapaz, somente pra que eu pudesse compor o amarelo em marília, ou o amor dos dois na relva. Caso pudesse suportar. Caso não fosse eu essa represa de poros por onde tudo vaza aos pouquinhos. Escorreria entre as mãos da mãe de Marília em casa, ao redor das crianças menores e limpas, tão limpas como o paninho bordado que forra a bandeja de doces. E o rapaz dos peixes eu o faria filho mais velho de uma mulher miúda e forte. Eles se amariam. aquela mulher e seu filho mais velho. Quando ela morresse ele choraria enrolado no chão como uma cobra. E a ternura dos olhos da mãe fincando morada nos olhos dele. O homem de terno escuro me pergunta e agora? ele quer saber pra onde eu vou levar essa gente e eu digo que essa gente me leva.” (Viviane Mosé)

Verdade, Coragem, Esforço e Paciência – Lama Samten

“Há quatro elementos essenciais em nossa prática: verdade, coragem, esforço e paciência. A capacidade de ver as coisas como são é a verdade. Manifestar nossa ação e nossa existência segundo esta verdade é a coragem. Perseverar na prática da verdade e coragem é o esforço. Fazer isto sem pensar nos resultados, sem ficar avaliando a si mesmo, sem culpar-se e sem culpar os outros, sem culpar a sorte, sem lastimar as situações vividas ou o mundo ao redor, é a paciência.

Faltando a verdade, o caminho é interrompido. Sem coragem também não vamos adiante. Sem perseverança logo desistimos. Sem paciência ficamos amargos e sofremos. Com verdade, coragem, esforço e paciência, a liberação já está presente.”

Lama Padma Samten, Relações e Conflitos. Viamão: Mandala do Lótus, 2006.

Arriba!